Quando eu estava na faculdade de Jornalismo, estranhamente o currículo (talvez para reduzir custos, sei lá) trazia várias disciplinas da área de Publicidade como comuns para todo o curso de Comunicação Social. Numa dessas disciplinas, desenvolvi com meu grupo de trabalho a fácil e prazerosa arte de enganar criancinhas.
Tínhamos que criar um produto e desenvolver uma “campanha” para ele. Sem muitas idéias, decidimos “criar” um refrigerante. Utilizei uma fórmula que eu sempre usava quando pequeno na máquina de refrigerantes da escola: 70% de Coca-Cola e 30% de Fanta. Fica um refrigerante levemente bizarro, com sabor que lembra (beeeem de longe) um guaraná mequetrefe. Mas eu gostava :)
Quando pequeno, eu chamava esse refrigerante de Fancoca. Como esse nome não seria nada comercial (além de ser ridículo), utilizamos os ensinamentos de nosso professor de Marketing, que dizia que os nomes que continham “plus” sempre teriam um “plus a mais”, e denominamos nosso frankestein líquido de Flavor Mix!
Resolvido o problema de produção (pegamos duas garrafas pet de 300 ml e inventamos um rótulo bonitinho que, infelizmente, se perdeu nas brumas do tempo), partimos para a campanha de marketing. Coloquei o melhor terno do meu pai, joguei uma câmera de vídeo com microfone em cima de uma colega e partimos para o colégio público que ficava perto da Gama Filho.
Chegando lá, nossa “equipe” explicou que estávamos preparando uma propaganda testemunhal sobre esse novo refrigerante. Os alunos do Ensino Médio participaram felizes da vida (ainda elogiaram muito o sabor do refrigerante, para meu orgulho de alquimista) e os pequenos estavam doidos para aparecer na TV.
Só que aí veio o ponto: Era hora da saída e as mães, zelosas, estavam por lá. Com toda a cara-de-pau que foi possível, explicamos todos os detalhes da produção cinematográfica e até demos os detalhes de quando apareceria a propaganda na TV. As mães zelosas, então, adoraram o fato de que seus filhinhos estariam na telinha. Sorte delas que esse refrigerante não era diurético ou coisa pior.
Partimos de volta para a faculdade com sensação de serviço bem feito. Bem feito para aquele pessoal que acreditou numa história tão cheia de furos e numa equipe de publicidade com cara de criança. Mas, claro, deu um peso na consciência quando eu estava caminhando nos arredores da faculdade e uma criança, ao lado da mãe, me reconheceu e perguntou se eu era o “rapaz da propaganda”.
Claro que eu saí correndo.
Moral da história: Estudante de Comunicação é tudo filho da p#%@!
Quando criança, eu fui precoce em algumas coisas e atrasado em outras. Normalmente nas coisas intelectuais eu era precoce (aprendi a ler por volta dos dois anos e meio, por exemplo), mas nas coisas mais, digamos assim, físicas, eu protelava.
Aprendi a nadar depois de todos meus colegas de escola (mesmo com a piscina da escola disponível todo dia), aprendi a utilidade das revistas Playboy depois da pré-adolescência (quando já haviam deixado de ser úteis), nunca aprendi a subir em árvore (quando pequeno, era medo, hoje em dia é prudência - seu eu subir numa árvore é capaz de eu derrubá-la), só andava de skate se fosse sentado (na verdade, até hoje não consigo ficar em pé num skate) e por aí vai.
Uma das coisas que aprendi mais tarde do que o normal foi a andar de bicicleta. Não lembro com exatidão, mas acho que foi por volta de uns 12 ou 13 anos que meu pai me obrigou a aprender de qualquer maneira a me equilibrar sobre duas rodas (eu só usava as humilhantes rodinhas até então).
Ele tentou de tudo quanto foi jeito. Segurou a bicicleta para soltar depois (quando ele soltava, eu parava), tirou uma rodinha para depois tirar a outra (eu me equilibrava só so lado da rodinha que ficara), e várias outras técnicas clássicas utilizadas com crianças medrosas.
Até que, finalmente, veio a luz: Meu pai colocou duas notas de cruzeiro (credo! tô velho!) a uma distância razoável e disse que o dinheiro seria meu se eu conseguisse passar por cima das notas. Aprendi a andar de bicicleta no mesmo instante e passei pelo dinheiro.
Claro que depois ele disse que guardaria o dinheiro para mim. Para meu azar, a única parte intelectual que não me veio precocemente foi a financeira.
Hoje é dia do trabalho e lembro das eleições para governador do Rio de 1986. A associação bizarra é culpa de um jingle horroroso do então candidato Moreira Franco que repetia o tempo inteiro “O nome dele é trabalho, o nome dele é trabalho, o nome dele é trabalho, trabalho, trabalho, trabalho”. Tinha uma segunda parte rápida que dizia que o Rio iria mudar e coisa e tal, mas o que ficou martelando na cabeça foi essa porcaria de refrão.
Claro que houve outros jingles que marcaram minha infância, como o “Bote fé no velhinho” (uma música legal, mas tremendo bola-fora dos marqueteiros do Ulysses Guimarães) e o “Dois, dois, dois, duzentos e vinte e dois, Super-Helinho pra senador” (uma tentativa de um senador do Rio de conquistar o voto dos pais conquistando primeiro seus filhos bocós).
Mas esse jingle do Moreira Franco em particular me marcou de forma muito mais forte porque na eleição daquele ano fiquei ouvindo essa porcaria o dia inteiro. Afinal, moro praticamente grudado a uma zona eleitoral e, naquela época, a boca-de-urna rolava muito mais solta do que hoje em dia. E um carro de som cismou de ficar na frente da minha casa com esse jingle tocando a toda altura durante o dia inteiro.
Eu tinha cerca de oito anos na época e adorava colecionar santinhos de candidatos. A cada eleição, juntava trocentos santinhos e, dois meses depois, sempre perdia a coleção porque dava rato no lugar onde eu os guardava (algo até poético, creio eu). Também adorava ver horário político (o que gosto até hoje) e acompanhava a seção de política do jornal. Não entendia quase nada, claro, mas ainda assim lia com atenção.
Só que, nesse ano em particular, eu não conseguia nem admirar o ir e vir de pessoas na zona eleitoral. Nem mesmo ir com meu pai enfrentar a enorme fila para a votação ainda em papel conseguia me tranqüilizar. Eu só ouvia “O nome dele é trabalho, o nome dele é trabalho, o nome dele é trabalho, trabalho, trabalho, trabalho”.
Minha irmã mais velha teria teste no dia seguinte e, CDF como era na época, estava quase se jogando da janela em cima do carro de som. Minha irmã caçula, ainda uma coisinha pequenininha, chorava sem parar. E eu tentava me vingar jogando aviõezinhos de papel feitos com santinhos pela janela (não os da coleção, mas os repetidos), mas não acertava a caixa de som.
No final das contas, fiquei com aquela música martelando até hoje na minha cabeça e, apesar de me esforçar muito, nunca consegui descobrir por que diabos o Moreira Franco dizia que seu nome era trabalho se ele não fez porcaria nenhuma como governador…
Quem me conhece, costuma dizer que tenho uma pequena… digamos assim… “mania” da falar em cocô e seus variados. É um certo exagero. O problema é que, numa conversa sobre bobagens, eu falo sobre vários assuntos, inclusive coisas nojentas. Porém, o fato de que eu não tenho vergonha em admitir que produzo nojeiras, ao contrário da maioria hipócrita que nega seu xixi e seu cocô, fez com que eu ganhasse essa fama.
E já que eu toquei no assunto, vou falar um pouco sobre o assunto :)
Um aviso antes de continuar o post: Esse é um texto extremamente escatológico. Então, se você tiver nojinho ou bom gosto, não prossiga com a leitura. Ainda aí? Que decepção…
Bom… Uma história escatológica interessante é a de quando eu descobri uma nova utilidade para as revistas de cruzadinhas. Caminhando tranqüilamente, ainda a uma distância razoável de casa, minha barriga começou a doer. Apesar de não estar tão longe assim de casa, estava longe o suficiente para chegar sem conseqüências drásticas. Portanto, zarpei para um barzinho esquisito que tinha perto de onde eu estava.
Conseguindo convencer a dona de que eu realmente precisava usar o banheiro, ela me liberou a chave do lavabo. Contudo, não apenas o vaso não tinha tampa, como o lugar estava todo sujo. Sem nenhuma opção, posicionei-me da maneira mais higiênica possível (em pé, para não encostar naquela nojeira) e parti para os trabalhos.
Ao concluir, ainda me recuperando do acontecido, percebi que o local não possuía papel higiênico. Nem ao menos uma pia com água. Por sorte, eu voltava da banca de jornal, onde havia comprado algumas revistas de cruzadinhas da Coquetel. Sacrifiquei metade de uma revista para me preparar para, ao menos, chegar em casa com um pouquinho de dignidade. Sem contar que também tive que sair às pressas, pois a descarga não estava funcionando e eu fiz uma obra elisabetana.
Agora que escrevi isso tudo, vejo que só me repetiria se falasse sobre o bar à beira da Dutra, na Serra das Araras, no qual eu defequei até no teto quando era criança. Ou se desenvolvesse uma história detalhando os diversos tons de cocô que observei enquanto me desintoxicava de anos de carne vermelha numa semana num spa. Ou, ainda, se perpetrasse uma análise completa sobre a vez em que fiquei três semanas num hospital, sem obrar, e precisei de uma espécie de roto-rooter para auxiliar-me, mesmo dia no qual passei a respeitar as mulheres que têm seus filhos por parto normal.
Pensando bem, nenhuma dessas histórias merece ver a luz de um novo dia. Vou parando por aqui antes que eu enterre mais ainda minha reputação.
…
Que reputação?
Desde pequeno eu sempre fui chato. Além de ser chato, eu gostava de mostrar o quanto eu era observador e perspicaz; coisas que eu não era, mas achava que sim.
Por conta dessa compreensão um tanto torta, teve um momento em que eu decidi virar advogado. Essa vontade durou cerca de dois minutos, graças a Deus, mas existiu. E os motivos, tanto da vontade quanto da desvontade, são um tanto bestas.
Estava eu, com uns doze ou treze anos indo com a família de carro para Angra, quando meu pai passa ao lado de um motoqueiro. Distraído, eu só vi o motociclista quando ele já havia sido cortado.
Alguns quilômetros adiante, meu pai estacionou para minha mãe e minhas irmãs comprarem sei lá o quê num mercadinho. Ficamos eu e ele no carro esperando por elas. Alguns minutos depois, o motoqueiro pára ao lado do carro e começa a reclamar com meu pai, dizendo que ele deu uma “fechada” na moto.
Não entendendo bem o que havia acontecido, imaginando que meu pai negava o fato de ter cortado a moto (eu não havia entendido muito bem o porquê da reclamação do motoqueiro, já que era normal carros cortarem motos na estrada), falei do banco de trás que isso havia ocorrido realmente.
O motoqueiro ganhou força e meu pai teve que contornar a situação pedindo desculpas. Após um pouco mais de conversa, ele foi embora e eu fiquei imaginando, em minha mente infantil: “Poxa, vou ser um ótimo advogado. Afinal, eu decido falar a verdade mesmo contra alguém que eu gosto”. Sim, eu era uma criança iludida sobre a Justiça, mas isso não vem ao caso.
Dois minutos depois, minha mãe e minhas irmãs voltam. Embevecido em meus pensamentos, sou abruptamente cortado pelo meu pai dizendo para minha mãe o que eu acabara de fazer. Só então descobri que o motoqueiro havia acusado meu pai injustamente e, por sorte, ele não era alguém violento ou poderia até querer dar porrada em todo mundo.
Então, decidi que não queria virar advogado.
Qual a graça dessa história? Sei lá, pô. Quando lembrei dela, parecia interessante. Agora resta só o retrato de um menino lesado que quis ser advogado para falar a verdade e desistiu de sê-lo por ter falado mentira.
No final das contas, acabei virando jornalista, o que dá quase na mesma.
Certa vez eu li em algum lugar que a vida de qualquer pessoa pode gerar uma biografia. Sempre achei exagero, mas depois, analisando o mercado norte-americano e britânico sobre biografias cheguei à conclusão de que isso tem um fundo de verdade.
Afinal, se o biografado não criou nenhum grande invento, não foi um importante presidente ou sequer foi para a cama com uma princesa, ainda assim pode ter sua biografia se recheá-la de historinhas engraçadas e pretensamente edificantes. Se for bom nisso, ainda pode chamar a biografia de “auto-ajuda” e ganhar mais dinheiro ainda.
Considerando que eu nunca fiz nada de importante para a humanidade e nem namorei com alguma atriz ou princesa, só me resta contar algumas historinhas engraçadas sobre minha vida. O triste é que, mesmo assim, não tem absolutamente nada para contar que não seja patético ou desairoso para minha imagem.
Mas, como alguém disse certa vez: “Que imagem?”
Começo, portanto, com algumas anotações para uma possível biografia bem do começo: Meu parto! Não que eu me lembre do meu parto, mas todas as histórias que já ouvi meus pais e minha irmã mais velha contando, permitem que eu mostre que, desde cedo, eu já levava jeito para ser uma criatura problemática…
Dentro do útero da minha mãe era bem confortável. Eu realmente não queria sair de lá. Enquanto minha irmã mais velha nasceu em menos de sete meses, minha mãe estava alcançando quase o décimo mês e eu continuava tranqüilão do líquido amniótico. Tudo bem que eu já nem cabia direito no útero (tanto que meus dedos são tortos até hoje por conseqüência disso), mas eu queria era descansar.
Mas a vida boa estava prestes a acabar. Para meu azar, de alguma forma o cordão umbilical enrolou no meu pescoço e eu comecei a sufocar. Meus pais saíram em disparada até o hospital e, por sorte, o médico que atendia minha mãe tinha dado uma passadinha por lá porque seu filho estava doente (ou alguma coisa desse tipo).
Tudo preparado para a cesariana, eu fui tirado de lá de dentro, sob protestos. Bem que poderiam tirar aquilo do meu pescoço e me deixar por lá mais um tempinho… Mas não dava: Eu já estava totalmente roxo por causa da falta de ar. Ao menos posso dizer que não nasci apenas com “aquilo roxo”, mas totalmente roxo!
Imediatamente, fui levado a uma daquelas maquininhas esquisitas onde põem as crianças para se recuperar de partos um tantinho mais complicados que o normal. Até que fui bem, já que em menos de uma semana já estava em casa. Ainda assim, o primeiro grande trauma da minha vida ocorreu ainda no hospital, por conta da minha irmã.
Desde pequena, ela sempre teve consciência de que era uma menina bonitinha. Então, imaginava que seu irmão seria possivelmente um adônis. Quando a coitada ficou diante daquela criatura amassada, roxa e toda torta, começou a chorar e teve uma reação intempestiva, gritando:
- Isso não é meu irmão! É muito feio! Não é meu irmão!
A coitadinha ficou inconsolável. E, apesar de eu obviamente não lembrar de nada, ela sempre fez questão de comentar essa passagem. Mas, claro, tive várias chances de me vingar depois, ainda bebê, fazendo muito xixi em cima dela.
Pois é… Se recém-nascido eu já sofri isso, acho que vou pensar bastante antes de escrever outra dessas anotações para uma possível biografia…